Olá, pessoal! Aconteceu muita coisa desde a minha última postagem neste blog. Uma delas: passei num concurso e estou trabalhando. Paralelamente a isso, continuei minhas observações de interdisciplinaridade entre as ciências exatas e as humanas. Uma coisa que notei, e que é a origem de muitos problemas do mundo atual, é a tendência que as pessoas têm de se comparar com as outras, seja se sentindo superiores e se tornando arrogantes, ou inferiores e perdendo a motivação de lutar pelo que querem. Isso me lembrou uma aula de economia que tive no curso de formação do meu concurso. Eu já tinha um certo conhecimento da teoria de otimização, bastante útil para engenheiros, que consiste em se determinar qual a condição em que determinada função, por exemplo, custo de um projeto, atinge o valor mais vantajoso para o objetivo em questão (no caso de custo, o menor valor). É um raciocínio bastante simples quando se tem apenas uma função objetivo (nesse caso, o custo), mas o que fazer quando há dois ou mais fatores que se quer otimizar, aparentemente sem relação um com o outro, mas todos se alterando de maneira conflitante quando se altera as variáveis do problema?
Deparei-me com isso em um trabalho de sistema elétrico da faculdade: tínhamos que escolher uma combinação de baterias para alimentar o sistema de uma aeronave, sendo que havia baterias de diferentes preços e pesos para fornecer a mesma quantidade de energia. O problema era que, quanto mais barata a combinação, mais pesada ela era, e o peso é um fator muito importante em um projeto aeronáutico. Como sair do impasse? No caso desse problema, um dos grupos calculou o impacto que cada aumento de peso teria no custo de fabricação e operação do avião durante toda a sua vida e comparou com a variação de preço das baterias. Nesse caso, havia algo em comum entre o peso e o preço, que era o impacto econômico, mas o que fazer quando se tem que comparar alhos com bugalhos?
Voltando à aula de economia do curso de formação, o professor apresentou a nós o critério de otimalidade de Pareto. Segundo esse critério, determinada condição é uma condição ótima se não houver nenhuma outra condição para a qual todas as funções objetivo tenham valores melhores ou iguais e pelo menos uma função objetivo tenha valor melhor que na condição dada. Ou seja, segundo Pareto, uma combinação com baterias pesadas e baratas é tão boa quanto uma outra com baterias leves e caras. À primeira vista, isso parece uma conclusão meio idiota, mas uma coisa que muitos engenheiros fazem quando lidam com otimização multiobjetivo é determinar todos os ótimos de Pareto do problema para depois escolher um deles baseando-se em outros critérios.
Agora, aplicando o critério de Pareto a pessoas: segundo Pareto, uma pessoa bonita, inteligente, rica e ruim em cuspe à distância é tão boa quanto uma pessoa feia, burra e pobre, mas campeã em cuspe à distância. Usei esse exemplo bizarro para substanciar o raciocínio que vou desenvolver a seguir: não há ninguém melhor do que ninguém porque, ao comparar duas pessoas, sempre pode-se encontrar algo em que a primeira é melhor do que a segunda e algo em que ocorre o oposto.
Vocês podem argumentar: mas que benefício traz a alguém ser bom em cuspe à distância? Provavelmente fizeram a mesma pergunta sobre os jogadores de futebol do começo do século XX. Hoje em dia, considerando a remuneração disponível, muita gente prefere ser jogador de futebol do que um "mísero" engenheiro aeronáutico. Se perguntarem a minha opinião, direi que o avião traz muito mais benefícios à humanidade que o futebol, mas se perguntarem a mesma coisa a alguém que nunca andou de avião mas sempre assiste aos jogos de seu time favorito, a resposta será completamente diferente. Essa diferença é outro fator que corrobora a visão de Pareto aplicada às pessoas: um engenheiro aeronáutico é tão bom quanto um jogador de futebol, até porque questões como essa muito dificilmente têm opiniões unânimes.
Toda a exposição da postagem de hoje teve como objetivo inutilizar qualquer fundamento que alguém possa encontrar na comparação entre pessoas. Tal comparação, além de ser anti-ética e contrária aos valores humanos, demonstrou-se nesta postagem ser também cientificamente errônea e ilógica. Além disso, minha intenção foi tranquilizá-lo se você estiver se sentindo o cocô do cavalo do bandido por algum motivo (lembre-se que você também tem qualidades), e "abaixar a sua bola" se você, por alguma outra razão, estiver se sentindo a última bolacha do pacote (lembre-se que você também tem defeitos). Ninguém é melhor do que ninguém justamente porque as "funções objetivo" de cada um são muito diferentes e, ao contrário do exemplo acadêmico que dei (peso e preço), são, na maioria das vezes, tão impossíveis de comparar quanto uma boa música com uma boa pintura.