sábado, 26 de julho de 2008

Sistemas de controle emocionais

Olá!!! Hoje, farei uma comparação entre um assunto muito importante das engenharias elétrica, mecânica e afins e a maneira como nossas emoções funcionam. Estou falando da Teoria de Controle. E, como não poderia deixar de ser, o exemplo que darei de um dispositivo sujeito a sistemas de controle é o próprio avião. Como o nome diz, eles são necessários para controlar a atitude do avião em seus diversos regimes de vôo: decolagem, subida, cruzeiro, descida e pouso. Nos aviões modernos, muitas dessas fases são controladas eletronicamente. Mas em todos os tipos de aviões, é preciso usar sistemas de controle, nem que sejam simplesmente mecânicos ou mecânico-hidráulicos. Por exemplo, se o piloto desejar levantar o nariz do avião, ele puxa o manche, e os sistemas de controle conectados são responsáveis pela execução da vontade do piloto. Só que, dependendo da qualidade do sistema e da construção do próprio avião, uma mudança nos controles pode acarretar uma oscilação indesejada que demore a se estabilizar ou, pior, uma divergência que leve a um aumento indesejado das cargas sobre a estrutura que cause seu colapso. É por isso que é muito importante o trabalho dos engenheiros aeronáuticos de estabilidade e qualidade de vôo. Um sistema de controle mal-projetado pode levar à ruína um projeto aeronáutico. Além disso, é relevante o estabelecimento de derivadas de estabilidade adequadas, as quais são inerentes à configuração da aeronave. Dessa forma, é estabelecida uma mudança de estado que não seja divergente, nem excessivamente oscilatória, nem brusca, para que nem a estrutura nem os passageiros sofram conseqüências indesejadas do acionamento de um controle.
Funciona do mesmo modo a resposta do ser humano a mudanças em sua rotina. Há pessoas que, ao receber uma notícia extremamente boa ou ruim, têm estabilidade emocional suficiente para se adaptarem às suas novas condições com facilidade. Já outras, quando se deparam com uma mudança inesperada, podem entrar em um surto de felicidade ou tristeza incompatíveis com a sua natureza, que podem levá-la a comportamentos irracionais, como a autoconfiança excessiva, no caso de mudanças positivas ou a depressão, no caso de mudanças negativas. Tudo depende da qualidade do sistema de controle de emoções embutido em cada um. Ou, no caso de algumas calamidades, pode haver uma oscilação, como uma descarga de adrenalina no início da perturbação, até que a pessoa aja para resolver a situação da melhor forma possível e, em seguida, ocorra uma queda de hormônios que também cause a depressão. Parece que, assim como os impulsos elétricos ou mecânicos são os agentes no controle de máquinas, os hormônios são os agentes no controle emocional dos seres humanos. Basta verificar que, após um exercício físico, as endorfinas liberadas levam a uma sensação de bem-estar. Ou que, quando se está com a pessoa amada, a ocitocina causa um prazer indescritível. Ou que algumas mulheres têm TPM, causada por seus ciclos de hormônios femininos.
Cabe a nós lidar com emoções da melhor forma possível, sendo senhores delas e não escravos. Não estou dizendo para nos tornarmos insensíveis, apenas para aprendermos a controlá-las de forma que não nos causem efeitos indesejados, como os de um sistema de controle mal-projetado em um avião.

quinta-feira, 10 de julho de 2008

Buracos-negros humanos

Hoje falarei de um dos componentes mais bizarros de nosso universo: os buracos-negros. Desde que Newton formulou sua famosa Lei da Gravitação, que é conhecida a relação que rege a atração gravitacional entre duas massas a uma dada distância. Dessa fórmula, pode-se inferir também a velocidade mínima que um objeto a determinada distância de uma grande massa deve ter para conseguir escapar completamente de seu campo gravitacional, denominada velocidade de escape. Só que, de acordo com a Relatividade Especial de Einstein, há um limitante superior para a velocidade relativa entre dois corpos quaisquer: a velocidade da luz. Portanto, conclui-se que, se existir uma quantidade de matéria pesada e densa, de forma que, se um corpo estiver suficientemente próximo a ela, sua velocidade de escape seja superior à da luz, então, até uma certa distância, não haverá nenhum tipo de matéria ou onda capaz de escapar desse campo gravitacional. Essa é a definição de buraco-negro, e o volume do universo no qual a velocidade de escape é maior que a da luz é denominado horizonte de eventos do buraco-negro. Uma das implicações dessa característica é que nós nunca seremos capazes de descobrir o que acontece dentro de um buraco-negro, pois se um astronauta fosse enviado para lá com um transmissor, as ondas de rádio, que se movem à velocidade da luz, não conseguiriam escapar da atração do buraco-negro.
No mundo das relações humanas, existem determinadas pessoas que são verdadeiros buracos-negros, devido a seu grande poder de atração, que faz com que, mesmo se tentarmos ficar longe delas com a maior rapidez possível, mais cedo ou mais tarde estaremos sendo atraídos de volta para seu convívio. São aqueles familiares, amigos e amores que, por mais que ocorram desavenças que nos afastem, nos atrairão de volta após um intervalo de tempo finito. E, muitas vezes, essas pessoas que nos são caras têm outra característica dos buracos-negros: é impossível saber com certeza o que se passa em seu interior. São essas personalidades magnéticas e enigmáticas que fazem com que a nossa história diária de convivência interpessoal seja extremamente fascinante. Podemos explorar cada faceta de nossos entes queridos como se fôssemos detetives, mas sempre haverá fantásticas surpresas. Todos os seres humanos capazes de afeto atuam como buracos-negros para alguns outros, e geralmente o fenômeno é mútuo. São essas curvaturas do espaço-tempo emocional que tornam maravilhosa a interdependência humana.

quarta-feira, 2 de julho de 2008

Inércia sentimental

Hoje deixarei de lado a física moderna, com Schrödinger e seu gato morto-vivo, para explorar uma das leis básicas da física clássica elementar: a 1ª Lei de Newton, que descreve o conceito de inércia, ou seja, a resistência à mudança de estado. Segundo essa lei, um corpo que está parado ou em movimento retilíneo uniforme tenderá a permanecer nesse estado a menos que uma força externa atue sobre ele. Agora, traçando meu costumeiro paralelismo entre as ciências físicas e as humanidades, pode-se notar que diversos comportamentos humanos são também governados pela inércia. Por exemplo, a mania que todo mundo tem de querer sempre dormir tarde e acordar tarde. Quando chega a noite, nosso corpo está habituado à ação e sempre queremos prolongar um pouco mais nosso dia ativo. Já de manhã cedo, quando acordamos, é comum querer "só mais cinco minutinhos" na cama. Outro tipo de inércia é a que ocorre quando nos habituamos a determinada rotina e, quando acontece algo diferente, sentimo-nos ligeiramente desambientados, e é necessário um tempo de adaptação. Mas a inércia humana mais comum é a inércia sentimental, que pode ser descrita pela nossa resistência a mudar de sentimentos em relação a determinadas pessoas. Tendemos a nos prender sempre às mesmas amizades e, quando alguma é rompida, sentimo-nos mal. A mesma coisa vale para relacionamentos amorosos, pois, de acordo com Luís Fernando Veríssimo, "um romance cujo fim é instantâneo ou indolor não é romance". Muitas vezes, a sensação é parecida com a de passageiros em um carro constantemente submetido a curvas e acelerações, tem-se um desconforto ao mudar de estado físico, no caso do carro, ou sentimental, no caso de amizades e amores rompidos. Além disso, para algumas pessoas, particularmente as mais introvertidas, como eu, é difícil criar novas amizades, o que caracteriza outro aspecto da inércia sentimental. Infelizmente, ela também ocorre com sentimentos de antipatia, quando "não vamos com a cara de alguém", é difícil se aproximar da pessoa para conhecer elementos que mudem essa opinião.
Muitas vezes, para combatermos a inércia sentimental, é necessária uma "força externa", tal como descrita na 1ª Lei de Newton. Por exemplo, família e amigos íntimos, para superar dores causadas por algum tipo de hostilidade de alguém a quem se quer bem. E, mais importante, é preciso se espiritualizar, já que a crença em um Deus cujo amor supera todas as formas imagináveis de amor entre seres humanos é capaz de fazer milagres em um coração ferido. E também utilizar nossa própria força para ajudar outras pessoas, mesmo as que não conhecemos, pois é dando amor que se obtém amor. Dessa forma, trabalha-se para obter a sinergia derivada da coesão social, que transforma um grupo de pessoas em um sistema mais desenvolvido que a soma das capacidades das pessoas isoladas.
Em muitos casos, a inércia sentimental é algo benéfico, pois causa a constância em relacionamentos. Mas é importante não confundir sentimentos de amor verdadeiro com sentimentos de apego, no qual se usa a outra pessoa como muleta para se evitar encarar a vida de frente. Para encará-la, é desejável ter uma certa flexibilidade, para não se deixar afetar pelas desvantagens da inércia sentimental, que existem assim como seus efeitos positivos.