quarta-feira, 30 de maio de 2012

A dinâmica dos fluidos computacional e o perfeccionismo humano

Pessoal, continuando meu paralelismo entre as ciências físicas e as humanas, vou citar algo que aprendi recentemente em uma aula de dinâmica dos fluidos computacional, que é uma classe de métodos para resolver de forma aproximada problemas que não têm uma solução matemática "bonitinha". No método que eu estava aprendendo, havia, na formulação matemática dele, a introdução de um termo "inventado", ou seja, que não tinha, a princípio, relação lógica com o problema que estava sendo resolvido. Então, o professor explicou que esse termo servia para evitar que o método, por não ser exato, sofresse a chamada divergência, que consiste no aumento descontrolado dos resultados parciais do problema, agravado pelo fato de cada resultado interferir na obtenção do próximo. Ou seja, a introdução de um termo que, teoricamente, distanciaria a solução aproximada da solução exata, ironicamente possibilitou que se obtivesse um resultado que, apesar de não ser perfeito, não seria obtido se o método fosse um pouco mais "próximo da perfeição". Fisicamente, isso tem a ver com o conceito de energia e, como o erro do método aumentava a energia do problema, era necessário introduzir o termo "inventado", que era um termo dissipativo.
Na vida humana, esse fenômeno é análogo a uma característica que, muitas vezes é vista como virtude, mas, por seu exagero, acaba se tornando nociva: o perfeccionismo. A energia do problema é análoga ao estresse do dia-a-dia. Se nós fôssemos perfeitos, e se a dinâmica dos fluidos computacional fosse um método exato, não haveria problema nenhum em almejar a perfeição. Como isso não acontece, e ao contrário da conclusão que seria mais óbvia a princípio, o perfeccionismo não leva a uma maior proximidade efetiva da perfeição, às vezes tem o efeito oposto. Nesse caso, o "erro do método" é a preocupação (que não existiria no hipotético caso de existir alguém perfeito), a qual aumenta a "energia do problema", ou seja, o estresse, que pode causar danos ao "resultado final", a felicidade da pessoa. Para evitar isso, é necessário introduzir o "termo dissipativo": aceitar a imperfeição e fazer atividades relaxantes, que são tão importantes quanto as atividades de crescimento pessoal.
Colocada dessa maneira, a questão parece meio óbvia, mas, muitas vezes, a grande carga emocional associada a características inconscientes nos impede de enxergar aquilo que seria fácil concluir após uma análise imparcial e científica. Por isso é tão importante para  nós nutrir e preservar o delicado equilíbrio entre as nossas esferas cognitiva e sentimental.

segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

Como alcançar a escala métrica correta de seus problemas

Pessoal, passei mais este longo tempo sem escrever no blog provavelmente devido ao fato de, no momento, estar levando uma vida relativamente estável, sem grandes perturbações que pudessem me levar a conexões inesperadas entre ideias. Entretanto, esse fato não significa que o meu cotidiano esteja completamente livre de preocupações. Por exemplo, hoje fiquei um pouco mal-humorada simplesmente porque perdi minha lente de contato e, quando fui em casa buscar outra, pisei em um chiclete no caminho. O mais engraçado é que acabei dando importância exagerada a esses fatos aparentemente insignificantes justamente porque não havia nada maior na minha mente que pudesse "merecer" minha preocupação. Isso me lembrou algo que aconteceu na época da minha faculdade, em uma resolução numérica de equação diferencial. Para quem não é da área de exatas, esclareço que soluções de equações diferenciais são funções matemáticas, que, por sua vez, são relações entre duas ou mais variáveis, possíveis de serem representadas em gráficos. Só que aquela resolução específica gerou um gráfico caótico, com grandes picos, parecendo uma cordilheira. De certa forma, aquele gráfico se parece com o estado de espírito de uma pessoa lidando com constantes altos e baixos na vida. Contudo, a minha surpresa foi verificar que, com os parâmetros que utilizei no programa computacional que fez o cálculo, a solução da equação diferencial era zero, ou seja, o gráfico seria uma imensa planície, e não uma cordilheira. Mas não havia erro nenhum nos meus cálculos: na realidade, a distância entre os picos e vales da "cordilheira" era muito pequena, de centésimos a décimos de milésimos dos valores da variável dependente (a que fica na vertical), e esses picos e vales eram apenas erros computacionais. O aspecto montanhoso se devia à escala do gráfico: como a maior distância entre um pico e um vale era de décimos de milésimos, o software "esticou" o gráfico até essa distância atingir um nível visualmente significativo. Ou seja, foi um fenômeno similar ao que aconteceria se observássemos a superfície de uma mesa com um microscópio: ela pareceria uma cordilheira, mas apenas da perspectiva microscópica: macroscopicamente, ela é plana.
Usei esse exemplo para ilustrar algo que ocorre frequentemente com os seres humanos: quando o maior problema de alguém é pequeno comparado aos grandes sofrimentos que a vida impõe à espécie humana, ela tende a "esticar a escala" do seu problema e dar a ele importância exagerada. Outro dia, eu estava expondo esse raciocínio a um amigo e ele me disse, em tom jocoso: "então o melhor é você sempre ter um problema grande, assim, os problemas pequenos permanecem pequenos na sua escala". Por incrível que pareça, essa é exatamente a solução para evitar essa superdimensionalização de nossos pequenos perrengues. Mas é claro que não estou sugerindo que vocês criem problemas para si, isso seria uma tremenda idiotice. O que estou querendo é fundamentar cientificamente a supremacia do altruísmo, em detrimento do egoísmo, como meio para se alcançar a felicidade. O egoísmo é, na verdade, uma visão microscópica, ao olhar só para si, as suas pequenas picuinhas são todo o universo que você consegue enxergar e, por isso, elas parecem grandes. Entretanto, quando você expande seu horizonte e começa a se preocupar com as necessidades dos outros à sua volta, percebe que aquela pequena parte de seu universo, agora expandido, correspondente a seus próprios problemas, é extremamente plana em comparação com os verdadeiros picos de infelicidade existentes ao redor do mundo, como guerras, fome, miséria, pobreza, doenças degenerativas e incuráveis, e mais uma extensa lista aparentemente infindável.
Portanto, essa distorção de escala que fazemos se deve, em última instância, ao nosso egoísmo e pequenez de visão. Como disse meu amigo, devemos, sim, nos preocupar com algo grande, de preferência, algo que ajude o maior número de pessoas possível, pois, quanto mais ampla nossa perspectiva, mais nossos pequenos problemas perdem importância em comparação com as questões mais profundas que envolvem a humanidade.