Pessoal, continuando meu paralelismo entre as ciências físicas e as humanas, vou citar algo que aprendi recentemente em uma aula de dinâmica dos fluidos computacional, que é uma classe de métodos para resolver de forma aproximada problemas que não têm uma solução matemática "bonitinha". No método que eu estava aprendendo, havia, na formulação matemática dele, a introdução de um termo "inventado", ou seja, que não tinha, a princípio, relação lógica com o problema que estava sendo resolvido. Então, o professor explicou que esse termo servia para evitar que o método, por não ser exato, sofresse a chamada divergência, que consiste no aumento descontrolado dos resultados parciais do problema, agravado pelo fato de cada resultado interferir na obtenção do próximo. Ou seja, a introdução de um termo que, teoricamente, distanciaria a solução aproximada da solução exata, ironicamente possibilitou que se obtivesse um resultado que, apesar de não ser perfeito, não seria obtido se o método fosse um pouco mais "próximo da perfeição". Fisicamente, isso tem a ver com o conceito de energia e, como o erro do método aumentava a energia do problema, era necessário introduzir o termo "inventado", que era um termo dissipativo.
Na vida humana, esse fenômeno é análogo a uma característica que, muitas vezes é vista como virtude, mas, por seu exagero, acaba se tornando nociva: o perfeccionismo. A energia do problema é análoga ao estresse do dia-a-dia. Se nós fôssemos perfeitos, e se a dinâmica dos fluidos computacional fosse um método exato, não haveria problema nenhum em almejar a perfeição. Como isso não acontece, e ao contrário da conclusão que seria mais óbvia a princípio, o perfeccionismo não leva a uma maior proximidade efetiva da perfeição, às vezes tem o efeito oposto. Nesse caso, o "erro do método" é a preocupação (que não existiria no hipotético caso de existir alguém perfeito), a qual aumenta a "energia do problema", ou seja, o estresse, que pode causar danos ao "resultado final", a felicidade da pessoa. Para evitar isso, é necessário introduzir o "termo dissipativo": aceitar a imperfeição e fazer atividades relaxantes, que são tão importantes quanto as atividades de crescimento pessoal.
Colocada dessa maneira, a questão parece meio óbvia, mas, muitas vezes, a grande carga emocional associada a características inconscientes nos impede de enxergar aquilo que seria fácil concluir após uma análise imparcial e científica. Por isso é tão importante para nós nutrir e preservar o delicado equilíbrio entre as nossas esferas cognitiva e sentimental.
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