quarta-feira, 2 de julho de 2008

Inércia sentimental

Hoje deixarei de lado a física moderna, com Schrödinger e seu gato morto-vivo, para explorar uma das leis básicas da física clássica elementar: a 1ª Lei de Newton, que descreve o conceito de inércia, ou seja, a resistência à mudança de estado. Segundo essa lei, um corpo que está parado ou em movimento retilíneo uniforme tenderá a permanecer nesse estado a menos que uma força externa atue sobre ele. Agora, traçando meu costumeiro paralelismo entre as ciências físicas e as humanidades, pode-se notar que diversos comportamentos humanos são também governados pela inércia. Por exemplo, a mania que todo mundo tem de querer sempre dormir tarde e acordar tarde. Quando chega a noite, nosso corpo está habituado à ação e sempre queremos prolongar um pouco mais nosso dia ativo. Já de manhã cedo, quando acordamos, é comum querer "só mais cinco minutinhos" na cama. Outro tipo de inércia é a que ocorre quando nos habituamos a determinada rotina e, quando acontece algo diferente, sentimo-nos ligeiramente desambientados, e é necessário um tempo de adaptação. Mas a inércia humana mais comum é a inércia sentimental, que pode ser descrita pela nossa resistência a mudar de sentimentos em relação a determinadas pessoas. Tendemos a nos prender sempre às mesmas amizades e, quando alguma é rompida, sentimo-nos mal. A mesma coisa vale para relacionamentos amorosos, pois, de acordo com Luís Fernando Veríssimo, "um romance cujo fim é instantâneo ou indolor não é romance". Muitas vezes, a sensação é parecida com a de passageiros em um carro constantemente submetido a curvas e acelerações, tem-se um desconforto ao mudar de estado físico, no caso do carro, ou sentimental, no caso de amizades e amores rompidos. Além disso, para algumas pessoas, particularmente as mais introvertidas, como eu, é difícil criar novas amizades, o que caracteriza outro aspecto da inércia sentimental. Infelizmente, ela também ocorre com sentimentos de antipatia, quando "não vamos com a cara de alguém", é difícil se aproximar da pessoa para conhecer elementos que mudem essa opinião.
Muitas vezes, para combatermos a inércia sentimental, é necessária uma "força externa", tal como descrita na 1ª Lei de Newton. Por exemplo, família e amigos íntimos, para superar dores causadas por algum tipo de hostilidade de alguém a quem se quer bem. E, mais importante, é preciso se espiritualizar, já que a crença em um Deus cujo amor supera todas as formas imagináveis de amor entre seres humanos é capaz de fazer milagres em um coração ferido. E também utilizar nossa própria força para ajudar outras pessoas, mesmo as que não conhecemos, pois é dando amor que se obtém amor. Dessa forma, trabalha-se para obter a sinergia derivada da coesão social, que transforma um grupo de pessoas em um sistema mais desenvolvido que a soma das capacidades das pessoas isoladas.
Em muitos casos, a inércia sentimental é algo benéfico, pois causa a constância em relacionamentos. Mas é importante não confundir sentimentos de amor verdadeiro com sentimentos de apego, no qual se usa a outra pessoa como muleta para se evitar encarar a vida de frente. Para encará-la, é desejável ter uma certa flexibilidade, para não se deixar afetar pelas desvantagens da inércia sentimental, que existem assim como seus efeitos positivos.

4 comentários:

Mariana disse...

Não pense que a inércia sentimental existe apenas para você, e o pior, ela tende a aumentar com nosso tempo de vida e as experiências que passamos!
Mas não deixe que isso faça de você uma pessoa muito muito inerte em relação aos sentimentos, apesar de ser difícil até para alguém extrovertida como eu manter a vontade de "conhecer" a humanidade mesmo depois de levar tanto "na cara". Enfim! risos
Continue sempre acreditando!
Abraço!

Adriana disse...

A mimi é mestra em escrever racionalmente! Me ensina???

rodrigowill disse...

Tudo muito bom, discordo apenas da parte (...)nos habituamos a determinada rotina e, quando acontece algo diferente, sentimo-nos ligeiramente desambientados(...) Sinto-me mais vivo, levo enconta "Cada corpo uma reação". Mesmo assim sua teoria é incrivel, é uma teoria?

Rayanna Ornelas disse...

Nunca tinha visto alguém conseguir explicar esse tipo de reação/sentimento de uma maneira tão racional. Gostei!